Existem momentos na trajetória de um empreendedor em que cruzar uma coordenada geográfica deixa de ser um deslocamento logístico para se tornar uma validação de visão. Percorrer a estrada entre Chile Chico e Porto Rio Tranquilo, na fronteira entre Argentina e Chile, é, para mim, o fechamento de um ciclo vital de cinco anos. Em 2019, eu cruzava este mesmo trecho em um carro alugado, alimentando o desejo de liberdade, mas sem a infraestrutura técnica que tenho hoje. Retornar agora a bordo da Expedition, um veículo ultra moderno e fruto de anos de engenharia própria, é o testemunho vivo de como uma ideia bem executada pode escalar de um sonho pessoal para uma liderança de mercado.
Reencontrar o mirante exato perto das Capelas de Mármore foi um exercício de nostalgia e análise. Há cinco anos, enquanto observávamos outros viajantes em kombis e campers, a Gabi trouxe um "requisito de projeto" fundamental: ela queria um banheiro maior. Naquele exato momento, uma van passou por nós na estrada sinuosa. Foi o estalo do "Produto Mínimo Viável" (MVP) na minha mente: "Uma van permite um banheiro maior". Ali, entre o vento patagônico e a vertigem das subidas, batemos o martelo. Decidimos que, ao voltar ao Brasil, eu construiria nosso próprio motorhome.
"Fechamos um ciclo lindo de 5 anos desde uma viagem até a criação de uma fábrica, uma fábrica referência em energia e em liberdade que hoje fornece energia para 16 fábricas de motorhomes no Brasil."

Viajar é a melhor forma de quebrar paradigmas técnicos. No início da minha jornada como construtor, eu operava sob a mentalidade do medo: janelas pequenas para evitar invasões. Com a experiência acumulada em mais de 40 países, entendi que a segurança não deve comprometer a experiência do usuário. Hoje, a segurança é gerida por tecnologia de ponta — câmeras, rastreadores e cofres — enquanto o design prioriza a conexão total com a paisagem. Durante o desenvolvimento da Expedition, fui intransigente: rejeitei janelas de 1,10m. Exigi janelas de, no mínimo, 1,20m. Se estamos nos lugares mais bonitos do mundo, precisamos da maior moldura possível para apreciá-los.
O que nasceu de uma necessidade de conforto na estrada transformou-se em um ecossistema de inovação que mudou a forma como se vê energia no caravanismo. A Sem Fronteiras deixou de ser apenas um projeto pessoal para se tornar uma referência industrial; hoje, fornecemos soluções de energia para outras 16 fábricas de motorhomes no Brasil. Essa evolução técnica é documentada no meu segundo livro e nos projetos do Instituto Sem Fronteiras, provando que o nomadismo moderno exige excelência técnica e compartilhamento de conhecimento. Não construímos apenas veículos; construímos autonomia.

A estrada chilena é implacável: cascalho (ripio), vento forte e inclinações que desafiam o coração. Nestas condições, a tecnologia de um veículo superior traz consigo uma responsabilidade social. Tive a oportunidade de realizar o primeiro "teste de campo" do meu guincho ao resgatar um caminhão que saiu da pista em uma valeta. Ajudar uma senhora e uma criança presas em um terreno hostil reforça que o espírito do caravanismo é o pilar que sustenta a liberdade. A tecnologia da Expedition não serve apenas para o meu conforto, mas para garantir que ninguém fique pelo caminho.
A liberdade total no nomadismo só é possível através de processos rigorosos. Antes de colocar a Expedition em movimento, sigo um checklist técnico para garantir a integridade do veículo e a segurança dos sistemas:
Estabilidade de Carga: Baixar a mesa até encostá-la na almofada para evitar o balanço estrutural.
Segurança de Componentes: Checar o travamento de todas as gavetas e armários.
Gestão de Fluidos: Desligar a bomba de água e aliviar a pressão do sistema para evitar vazamentos por estresse térmico ou mecânico.
Perímetro Externo: Recolher a escada de acesso e conferir o fechamento de toldos.
Vedação e Privacidade: Conferir o fechamento de todas as janelas e o posicionamento dos blackouts.
Acesso de Fuga: Garantir que a passagem interna para a cabine de condução esteja destravada e livre.

Fechar este ciclo de cinco anos entre Chile Chico e Porto Rio Tranquilo me permite olhar para o retrovisor com orgulho e para o para-brisa com ambição. O futuro já está sendo projetado com metas claras para 2026 e 2027, focadas em expandir ainda mais as fronteiras da liberdade técnica. A estrada continua sendo meu laboratório e minha maior mentora.
Qual é o "mirante" na sua vida que está esperando por uma decisão que pode mudar tudo? O seu projeto de vida está pronto para sair do papel e ganhar a estrada?